quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Confissões de mãe

Quando o J. nasceu, a minha vida sofreu todas aquelas alterações normais e absolutamente radicais que fazem parte desse processo.

Passado o choque inicial, acho que consegui ser uma mãe moderadamente descontraída nos primeiros 6 meses.

Mas aos 6 meses tudo mudou. O J. teve uma pneumonia bilateral (em ambos os pulmões), que o obrigou a estar internado uma semana e à qual se seguiram várias infeções respiratórias que, embora não tenham envolvido mais nenhum internamento, obrigaram a várias idas ao hospital, novas palavras no meu vocabulário (broncodilatadores, tiragem, cinesioterapia, rumores/gatinhos, etc...) e muitas horas e dias de stress, numa altura em que eu passava muito tempo sozinha com ele.

Nessa altura, senti que tinha que conseguir fazer mais pelo meu filho do que estava a fazer (as mães têm esta tendência natural para achar que a culpa é sua...) e tornei-me numa mãe muito (exageradamente, ridiculamente, perigosamente) ansiosa.

Fiz coisas que, agora que penso nisso... Como é que ninguém me internou numa instituição psiquiátrica??? Como é que a família e amigos aguentaram sem me dar um par de estalos??? Como é que ninguém fez uma queixa à Comissão de Proteção a Crianças e Jovens, por excesso de zelo que resultava mal???

Hoje decidi dar ao mundo blogosférico o meu testemunho, através de alguns exemplos do que fazia, para que qualquer mãe que leia isto pense (espero eu) "Boa! Há gente pior que eu!"

Atenção: As situações que se seguem não são caricatura nem ficção. Aconteceram mesmo!

Ora então, vamos lá aos exemplos:

1 - Dormir no Inverno - Nós viviamos num último andar que era muito frio no Inverno e muito quente no Verão. Seja como fôr, no Inverno tinhamos o aquecimento a óleo ligado durante o dia. Só que eu achava que o J. teria frio durante a noite e então vestia-lhe o seguinte para dormir: um body de manga comprida, um babygrow de algodão, um babygrow de veludo e um babygrow de polar (4 camadas de roupa!!!) e depois enfiava-o dentro de um saco de dormir, daqueles de onde eles não conseguem sair (dos que se "vestem") e punha-lhe um edredão por cima...

2 - Dormir no Verão - Tal como já referi, a nossa casa era muito quente no Verão. E eu tinha por hábito que, se o J. estivesse muito suado e o pijama começasse a ficar molhado, trocava-o, mesmo com a criança a dormir (ele não acordava). Só que no Verão, numa casa quente, o rapaz suava muito... Então, eu chegava a trocar-lhe o pijama 3 e 4 vezes por noite... (Ainda hoje mantenho a prática de trocar o pijama a ambos os meus filhos, no caso de estarem muito suados. Mas agora, o que faço é trocar uma vez o pijama e a seguir procurar algo mais leve para os tapar)

3 - Creche - As creches são sítios onde normalmente está muito frio, certo?! Não!!! Mas eu achava que o rapaz tinha de ir bem agasalhado e então mandei-o o inverno inteiro com 2 bodys de manga comprida + 1 camisola de algodão (de preferência gola alta) + polar. Como ele tinha frequentemente as mãos frias, eu achava que ele não estava suficientemente agasalhado, mas não sabia mais o que lhe vestir. Agora acho que as mãos frias deviam ser uma defesa do corpo dele a tanta roupa num lugar aquecido...

4 - Rua - Eu nunca sabia bem o que vestir ao J. e, por defeito, achava sempre que nunca estava muito calor. Por isso, o meu filho chegou a ser várias vezes a única pessoa num determinado local a andar de manga comprida, quando toda a gente estava de manga curta. Se o meu dignissimo marido vir isto acrescentará, com razão, que outro dos meus problemas era estar tão indecisa que ora vestia o casaco à criança ("agora está a vir um bocado de vento"), ora despia ("agora o vento passou e já está mais calor"), ora vestia outra vez ("agora está a arrefecer")...

5 - Tosse - O J. tinha grandes ataques de tosse. Ele chegava a ter alturas em tossia praticamente ininterruptamente durante o dia e a noite, vomitando a comida e o leite, em consequência disso. Mas as minhas reações à tosse deles, senhores, as minhas reações... Eu tinha ataques de choro, porque o miúdo estava com tosse, porque achava que lá vinha mais uma infeção respiratória das grandes. Às vezes, isso acontecia mesmo. Outras vezes, a coisa acabava por se resolver bem. Mas eu desesperava quase sempre!!!

Pronto, agora chega de me humilhar perante vós, porque penso que já terão percebido a ideia.

Felizmente, acho que no segundo filho estou bastante melhor e já não entro nestes exageros.

Há uns dias, eu estava com o P. (o meu mai-novo) e encontrei uma mãe de um colega dele com o seu filho na rua. O P. estava de t-shirt e o outro miúdo estava de camisola de algodão de manga comprida. A mãe sentiu necessidade de comentar esse facto, dizendo que já não vestia nem t-shirts, nem calções ao filho, porque achava que já estava frio e não queria passar o inverno a ir com ele às urgências, como tinha acontecido no ano passado. Eu respondi que cada criança é diferente da outra e que o P. é um rapaz "quente", que não pode ter muita roupa vestida, porque começa a suar e com o ventinho que já se sentia ao final do dia, era pior ele estar suado, porque aí sim, corria o sério risco de ficar doente. Depois ela acrescentou que na creche muitas vezes havia uma janela aberta o dia todo na sala e não os tapavam na hora da sesta e depois os miúdos apanhavam frio. Eu lá a tentei acalmar, dizendo que na creche eles andam com o bibe por cima da roupa e que isso já os aquece o suficiente. A certa altura, eu mencionei o meu filho mais velho e ela disse "Ah, pois, é que você já vai no segundo e por isso tem experiência. Mas eu não!"
Continuámos mais um bocadinho a conversa, sempre à volta do mesmo, e quando nos despedimos eu não consegui deixar de sorrir, com um certo orgulho de mim mesma e com a certeza que, de facto, ser primeiro ou segundo filho faz mesmo diferença.

(ou seja, se não me internaram até agora, já não precisam de o fazer, ok?!)

Diferenças entre filhos - a alimentação (ou mais propriamente, a gulodice)

Tenho um segundo filho muito diferente do primeiro e isso é bom!
É bom, porque permite que haja mais diversidade lá em casa e permite-nos a nós, pais aprendermos mais e irmo-nos reinventando à medida que os desafios vão surgindo.
Só que há coisas em que o J. era bem mais fácil que o P., nomeadamente na alimentação.
Ambos comem bem, em termos da quantidade. Mas o J., por gostar de sopa, fruta e vegetais e não gostar especialmente de "porcarias" (gomas, bolos, doces, batatas fritas,...) sempre teve uma alimentação muito saudável, sem que tivéssemos que nos esforçar. Já o P.... também gosta de sopa e fruta, mas ADORA todas as porcarias que estejam ao seu alcance!
Exemplo disso é a sua paixão por "tátas" (batatas fritas).
Há uns dias tivemos mais um exemplo da sua gulodice. Os únicos refrigerantes de que o J. gosta são sumol de laranja e fanta. Ambos com muito gás.
Estávamos a almoçar e o J. estava a beber sumol. O P. viu e começou aos gritos "Qué muchu!!!" (Tradução: Quero sumo). Nós, que às vezes lhe damos um bocadinho daqueles sumos tipo nectar, dissemos que não havia sumo do dele. Mas ele insistia que queria "muchu" e cada vez gritava mais alto. Então os paizinhos, pensando que lhe estavam a dar uma grande lição, decidiram dar-lhe um bocadinho de sumol, para ver se ele se calava. O pai avisou "Olha que isso tem picos! Tu não vais gostar!" Deixou-o beber um golinho e ficámos a ver a reação, achando que ele ia cuspir tudo. Ele franziu o sobrolho, fechou os olhos, suspirou e depois disse, com um ar muito contente:

- Qué mais muchu com piques!!!!

Desde aí, acha que sumo que é sumo, tem que ter "piques"...
Ah, e noutro dia apareceu ao pé de mim com chocolate desde o nariz até ao queixo, passando por ambas as bochechas, porque assaltou a mochila da escola do irmão e conseguiu abrir o tupperware que tinha ainda uma bolacha daquelas com um bocado de chocolate por cima (acho que se chamam qualquer coisa como Petit Prince)

Estou bem arranjada com este...

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Problemas de auto-estima? (ou uma boa forma de recomeçar a escrever)

Decidi que o dia de hoje e uma ficha de TPC do meu filho criavam um bom momento para voltar ao blog.

O J. está no 2º ano e este fim de semana teve de fazer uma ficha em que deveria descrever-se, completando frases.

As primeiras frases eram simples "Os meus olhos são...", "O meu cabelo é...", mas depois começavam as mais complicadas, em que era suposto ele descrever as suas características psicológicas, o que mais gostava em si e o que os outros mais gostavam nele.

As perguntas e respostas foras as seguintes:

Eu sou... "Um pouco louco e divertidissimo!"
O que mais gosto em mim é... "Gosto de tudo em mim" (ao pai tinha dito que responderia "Gosto de ter um cérebro muito flexível")
Porque... "Sou um miúdo muito fixe!"
O que os outros mais gostam em mim é... (aqui ele teve mais dificuldade, porque dizia "Eu não sei o que os outros gostam em mim... eles é que sabem", mas acabou por responder) "Sou muito querido"
Porque... "Sou lindo e sou simpático para toda a gente"

E pronto, assim se consegue que uma mãe deixe de se preocupar que o seu filho tenha problemas de auto-estima, para passar a preocupar-se que o seu filho talvez seja até demasiado narcísico...


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Uma lição de anatomia

Estou grávida de 26 semanas.
Vou ter outro rapaz.
O mini-seminómada está contente!
Dá-me festinhas e beijinhos na barriga, fala com o irmão e já se nota que se preocupa com ele.
Ontem mostrou mais uma vez a sua preocupação, no final do jantar. Ele estava a comer morangos, eu perguntei se estavam bons, ele ofereceu-me um, eu respondi que não podia comer (não estou imune à toxoplasmose e a minha médica acha melhor não comer morangos, mesmo lavando-os bem) por causa do bebé. De repente, ele olhou para mim com um ar muito aflito e disse:
- Pois é, mãe, tu não podes comer nada! Porque quando tu comes o bebé fica enterrado. Coitadinho!!!
Eu tive de pensar uns segundos, para tentar perceber o raciocínio, e depois perguntei-lhe:
-Porquê? Porque o bebé está na barriga e a comida também vai para a barriga?
- Sim!!! - respondeu ele
Ri-me e depois tentei dar-lhe umas noções básicas de anatomia, para lhe explicar que o irmão não corria o risco de ficar soterrado em comida.
Hoje de manhã, pouco depois de acordar, ele apontou para a zona do meu estomago e disse:
- O estomago fica aqui, não é mamã? O bebé está aqui mais em baixo, dentro de uma bolsa e está bem protegido, pois é?
Sorri e acenti.
Adoro estas conversas com o meu rapazinho de 4 anos!
(Também estou entusiasmada com a perspetiva de ter novamente um recém nascido, mas a fase em que o J. está é muito gira!)

Porque me apetece

Ontem estive a reler vários textos deste blog e cheguei à conclusão que este é de facto um bom meio para manter as recordações vivas.
Por isso, decidi voltar a escrever.
Porque há coisas que se vão passando na minha vida que eu quero poder recordar mais tarde.
Escreverei essencialmente para mim... sem compromissos... sem pensar quem vai ler ou não.
Mas claro que se alguém me quiser ler e comentar o que escrevo, eu ficarei contente :)
Benvindo quem vier por bem!

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Os meus rapazes

O mini-seminomada está de férias, porque a escola dele encerra todo o mês de agosto. Como os pais não podem tirar todo o mês, nesta primeira quinzena ele tem andado a saltitar de casa da tia, para casa do avô, depois para casa da avó, depois para casa dos outros avós... Enfim, experiências que embora ao inicio nos parecessem uma grande confusão, têm acabado por correr bastante bem.

Hoje foi dia de ficar só com o tio, meu maninho caçula, e de irem os dois ao cinema ver o "Madagascar 3".

Quem me conhece, sabe que a minha relação com o meu irmão sempre foi maternal, ou como diria a cocó na fralda, ele é o meu irfilho.

Ora, deixar o meu filho com o meu irfilho tem a sua graça.

Há bocado estava numa reunião, coordenada por mim, e o meu telemóvel tocou. Vi que era o número de casa da minha mãe e pedi às colegas que me deixassem atender. Seguiu-se a seguinte conversa: (atenção: relembro que estava numa reunião e as pessoas presentes ouviam apenas a minha parte):
Maninho - Mana, ele come pipocas doces ou salgadas?
Eu - Pipocas doces.
Maninho - E pode comer gelado e pipocas ou dou-lhe só uma das coisas?
Eu - Não, ou lhe dás pipocas ou gelado
Maninho - Ok. Então não lhe dou gelado para sobremesa do almoço?
Eu - Ah, gelado para sobremesa, pode ser (nesta altura saí da sala a rir da minha própria figura e a imaginar o que estariam as minhas colegas a pensar de tal conversa, tão urgente que me fez interromper a reunião)
Maninho - Ok. Então dou-lhe gelado agora e depois levamos pipocas doces para o cinema e quando tu chegares lidas com a hiperatividade dele causada por excesso de açucar.
Eu - Ok. Beijinhos. Divirtam-se!
Maninho - Beijinhos

Voltei para dentro da sala, pedi desculpa às colegas e expliquei o que se passava. Valeu-me o facto de elas serem umas porreiraças, já me conhecerem há muito tempo e saberem que nem sequer é meu costume atender o telemóvel a meio de reuniões.

Agora estou ansiosa por chegar a casa da minha mãe e saber como correu o dia dos meus rapazes. Aposto que se divertiram imenso! :-D

Desabafo

Ando há que tempos a pensar todos os dias que tenho de vir aqui escrever.~

O mini-seminomada já fez quatro anos, já aconteceram várias coisas relevantes na vida dele e eu ainda não tive disponibilidade para vir aqui contar...

Hoje, venho aqui por outro motivo (mas talvez seja o impulso que preciso para voltar a escrever). Preciso de dizer o que sinto relativamente a uma notícia que recebi e que me deixou triste e a pensar (eu sei que para algumas pessoas parecerá banal, mas para outras não).

Ontem uma grande amiga minha escreveu-me num e-mail que o cão dela ia ser operado à coluna e ficaria internado cerca de duas semanas, porque ficou paralítico (não me contou pormenores, mas pareceu-me que teria sido natural, ou seja, não foi na sequência de um acidente ou queda).

Estive a fazer contas e a relacionar com acontecimentos da minha/nossa vida e cheguei à conclusão que o cão dela deve ter 15 ou 16 anos. No e-mail, ela dizia-me que a família tem estado a sofrer bastante com esta situação, porque obviamente estão muito apegados ao cão.

Nunca passei por uma situação destas, mas fiquei a pensar se valeria a pena estar a sujeitar o cão a uma cirurgia que obviamente o levará a ter dores e a um período de recuperação longo (ela falou-me em duas semanas de internamento). Até que ponto não seria mais "humano" dar-lhe uma injeção e deixá-lo adormecer para sempre? Aceitar que o seu tempo de vida chegou ao fim.

Eu tenho uma relação muito peculiar com a morte. Encaro-a com muita naturalidade, quando as pessoas/ animais já viveram aquilo a que se possa chamar "uma vida inteira" (a morte de crianças e jovens revolta-me, como aliás se pode ler aqui).

Tenho dois cães e sei que eles são parte da família. Tenho plena consciência que vou sofrer horrores quando eles morrerem e que preferia não ter de tomar a decisão de mandar abater um deles. Mas também me parece que a racionalidade dos cães é limitada. Eles não percebem tudo. Aliás, há uns tempos ouvi falar de quimioterapia para cães e pensei que seria o género de tratamento que eu não faria aos meus cães, por achar que lhes estaria a inflingir um sofrimento (dizem que a quimioterapia é dolorosa e tem muitos efeitos secundários) sem que eles percebessem porquê. Preferia dar-lhes uns bons últimos tempos de vida e deixá-los morrer em consequência da doença.

Enfim, isto para dizer que desde ontem ainda não consegui deixar de pensar no cão da minha amiga, que também é um bocadinho meu, porque vinha passar férias a minha casa quando os donos iam para o estrangeiro e porque eu passei muitas horas e muitos dias em casa deles. Tenho muita pena que a sua vida tenha chegado ao fim (porque eu acho que chegou mesmo) e espero que a sua passagem para o outro lado seja suave.

Contenta-me a ideia de que "todos os cães vão para o céu"! :-)

(agora vocês comentam: "E um regresso menos deprimente, não?!")