segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Sem-abrigo

Conheço vários sem-abrigo... Pessoas que vivem em ruas por onde passo...

Mas há um por quem sinto uma curiosidade e um respeito especial. Encontrava-o normalmente à porta do meu prédio e, porque nos víamos tão regularmente, comecei a dizer-lhe "Bom dia" e "Boa tarde". Ele olhava para mim, mas nunca me respondeu. Não sentia que ele estivesse a ser malcriado, porque na realidade, nunca o vi falar com ninguém.

Um dia, o meu pai contou-me que na reunião de condóminos tinham falado sobre o sem-abrigo do prédio. As vizinhas queriam tomar conta dele. O meu pai achava que elas eram loucas e que se tinha estado a perder tempo naquela reunião. Eu achei piada à ideia.

A verdade é que aquele homem, que ninguém conhece ou sabe de onde vem, é intrigante... Às vezes passo por ele e está a ler o jornal com um ar concentrado... Outras vezes encontro-o sentado ou deitado, a mirar o que se passa na rua. Não fala com ninguém. Não sorri. Vive isolado no seu mundo… e talvez nas suas recordações de uma outra vida…

Imagino sempre que aquele homem teve uma boa vida que, por uma razão qualquer, abandonou. Imagino que teve uma família. Imagino que teve uma mulher e filhos. Imagino que é um génio. Não tenho qualquer dúvida de que é inteligente.

Gostava de um dia me sentar ao lado dele e ouvir a sua história. Mas ele não ma contaria… Ficaríamos em silêncio e eu sentir-me-ia, como me sinto sempre, intimidada com o seu olhar...

Respeito-o! E desse respeito faz parte deixá-lo viver como quer. Sózinho... Sem-abrigo... Sem família... Sem ninguém...

Será que ele sente solidão? Será que é possivel viver-se bem na solidão? Não sei...

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